março 25, 2006

20 ANOS DE AFICCION


Já se passaram vinte anos que o Chico, miúdo franzino, moreno, cabelo escuro e olho brilhante, pisou pela primeira vez a arena da monumental praça Ilha Terceira. Pela mão de seu pai e acompanhado pelo avô entrou porta dentro, como se de uma figura do toureio se tratasse, imponente no seu altivo passo, pisou pé ante pé a magistral arena, que no seu imaginário lhe parecia menos dourada.
Ainda sem as tábuas vermelhas, as saltou, e no seu mundillho imaginário desenhou um lance, acompanhado por um profundo olé, vindo de não sei donde.
Desde aí até á inauguração do redondel angrense, toureou em muitas praças e pueblos, pegou sozinho um infindável número de toiros, montou e toureou nos melhores cavalos, fez cortesias, tocou cornetim, e até fez de banda de música, recolheu os astados e recebeu as palmas das primas que o olhavam com um ar interrogado.
Era assim que o Chico passava os dias de férias na Quinta do seu avô, onde a imaginação reinava e onde a essência do toiro bravo era criada no imaginário de uma criança.
No dia da inauguração da monumental lá estava ele, sentado na última fila, junto da família saboreando o seu Isbá, sossegado, esperava ansioso pelo toque da corneta, vislumbrando lá do cimo da enorme escadaria a panóplia de cores vivas que num dia de verão embelezam a praça.
Procurando inteirar-se de tudo o que estava á sua volta, o Chico reparou nos homens da jaqueta enramada, que estavam por detrás das tábuas vermelhas e no seu intimo pensou – “Um dia estarei ali”. De seguida ouviu-se o toque do cornetim e os nervinhos miudinhos, a condizer com o tamanho de uma criança, logo se fizeram sentir.
Era ver os valentes perfilando-se no centro da arena, entrando de seguida os toureiros, nos seus fatos de lantejoulas brilhantes, que pareciam chispas de fogo em tarde ensolarada. Mas a ânsia tornava-se cada vez maior, pois ele já ouvira o barulho dos cascos calçados de ferro dos cavalos, pisando o pátio das quadrilhas, bem ajaezados à maneira portuguesa.
Depois das cortesias entrou o cavaleiro e recebeu a farpa, o toiro entrou e os olhos do Chico brilhavam ainda mais, e ele num desassossego desenfreado da sua mente, tentava apanhar todos os movimentos, para depois em casa poder reviver brincando, tudo aquilo que naquele dia via com particular atenção.
E como o que tudo na vida acaba depressa, a primeira já tinha ido, “mas amanhã haverá mais”, pensava o pequeno Chico no meio de tanta gente grande á saída da monumental.
Chegado á Quinta já a noite caíra, mas Chico cheio de uma vontade férrea armou a sua muleta, feita de uma toalha velha e arreou o “Douradinho”, desenhou tantos e tantos lances, executou tantas e tantas sortes, que na hora da deita caiu estafado adormecendo de seguida, naquela noite o sonho não podia deixar de ser com toiros, e na manhã seguinte lá estava o Chico de novo de muleta em punho pronto para mais um dia de luta.
O Chico fez-se homem e com o gosto pelas touradas, cedo quando os pais o autorizaram, lá ia ele todo sorridente para as touradas á corda, matando a aficcion junto do meio da corda, como o avô lhe houvera ensinado. Lá aprendeu a ver os toiros de perto, mas o seu gosto era tão grande pela festa brava que num dia de chuva sentado na praça e junto com uns amigos, jurou que no ano seguinte iria participar na garraiada dos estudantes.
Se assim o jurou assim o fez e no ano seguinte já se perfilou em frente de uma rês brava, honrando a jaqueta dos tais valentes, que um dia em pequeno via atrás das tábuas vermelhas.
Juntamente com essa nova faceta, Chico aprendeu a montar a cavalo e montou o cavalo que em menino chamava de “Douradinho”, feliz da vida aquele dia fez-lhe lembrar que “o sonho comanda a vida” e que por vezes o que se sonha se torna realidade.
Numa breve passagem pelo mundo do toureio apeado, Chico aprendeu a manter os pés fixos na passagem do medo. Aprendeu a aguentar, a templar e a mandar no animal que na sua meninice era o seu ídolo, que naqueles dias a seus pés dava voltas em torno de si.
Com tudo isso se passaram 20 anos, e com estes vinte anos de aficcion aprendida lá dentro da arena dourada, se fez adulto, não toureiro, não forcado, mas sim um bom aficcionado.
De parabéns está a nossa querida praça, menina dos nossos olhos, que ao longo de 20 anos soube com a sua magia contagiante fazer nascer para a festa muitos e bons aficcionados, como o fez com o pequeno Chico.

Duarte Bettencourt

Artigo in revista Festa na Ilha de 2004

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