abril 29, 2006

"FENÓMENO TERCEIRENSE - Toiradas à corda da paixão"

In www.auniao.com por João Rocha

"“É muito nosso. Está no sangue do povo”. É esta a visão de João Costa sobre o fenómeno das toiradas à corda na ilha Terceira. Há 25 anos a fotografar toiradas, quase metade do seu percurso existencial, João Costa encontra dois tipos de aficcionados: “os que apreciam o bom trabalho dos capinhas e toiros e os que apenas acham que o toiro é bravo se pegar em alguém”.O fotógrafo (ele próprio um apaixonado pelas toiradas à corda) separa, desde logo, as águas. “Um toiro para ter valor não precisa de colher ou matar ninguém”- sentencia.

João Rocha jrocha@auniao.com
A discussão, virada paixão, é presença habitual no arraial. Segundo João Costa, os toiros motivam “mais discussões do que o futebol”.
Tudo depende das freguesias. Na Fonte Bastardo, por exemplo, “é forte a rivalidade entre as ganaderias Rego Botelho e José Albino Fernandes”.
Para se perceber a questão, é preciso fazer parte da mesma. Por isso, João Costa descarta a hipótese da toirada à corda ser transformada em espectáculo “para turista ver”.
“Ainda há pouco tempo, em Santa Luzia, vi um grupo de turistas nórdicos a fugir, manifestamente incomodado, depois do primeiro toiro ter esbarrado contra a parede” – argumenta.
Para ninguém sair assustado, recomenda que o turista tem de “ser preparado para o que vai ver”.Mas, mesmo só com o contributo da população local e dos saudosos emigrantes, o futuro das corridas está mais do que assegurado.
No ano passado bateu-se o recorde de toiradas à corda na ilha Terceira – 261 realizadas entre 1 de Maio e 15 de Outubro.
João Costa acredita que, no futuro, este número será ultrapassado. A ideia é a época taurina estender-se até 30 de Outubro. Acresce a possibilidade das toiradas não tradicionais poderem ser realizadas a qualquer dia da semana (uma em cada concelho), não se limitando a sua ocorrência aos fins-de-semana e feriados como dita o regulamento actual.
O “quinto” toiro
Ricardo Jorge acompanha as toiradas há mais de sete décadas. Com 75 anos de vida, o crítico tauromáquico lembra-se da sua estreia (tinha, então, quatro anos), pela mão do pai, na velha Praça de São João, num espaço agora ocupado pelo Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo.
Advoga a ideia de que as toiradas à corda agregam um número bem maior de aficcionados em relação às corridas na praça. A razão é elementar: “nos espectáculos na praça paga-se bilhete”.
Ricardo Jorge encontra, entre os adeptos das toiradas à corda, “conhecedores profundos da arte taurina”.
“O trabalho do capinha é muito interessante. Numa corrida, há sempre os que acompanham todos os passos do toiro com vista a aferir, de forma conhecedora, a sua bravura” – especifica.
Além destes, surgem os manifestamente interessados no “quinto toiro” – comes e bebes. Estes adeptos são mais importantes do que parecem à primeira vista, já que dão precioso contributo à economia paralela gerada pelas toiradas.
É a afluência às tascas ambulantes e os moradores das casas dos arraiais onde os toiros são corridos, que fazem questão de receber familiares, amigos e conhecidos com o melhor do que há para “trincar o dente e matar o bicho”.
A actividade comercial ganha, ainda, outra projecção através das senhoras e moças namoradeiras que fazem ponto de honra, em altura das festas da freguesia, na apresentação de vestidos e sapatos novos.Ao longo da história a massa popular vai criando as suas referências. Ricardo Jorge recorda-se do “Descornado”, o toiro “mais bravo que vi”.
Da ganaderia de José Parreira, o “Descornado” levava atrás de si uma legião imensa de admiradores. A fama era tanta que os aficcionados comentavam que nas toiradas onde corria eram necessárias duas ambulâncias. Uma para cada extremo...
Amor à camisola
As toiradas transportam, acima de tudo, ondas de paixão. Maria de Fátima Ferreira, herdeira da ganaderia Casa Agrícola José Albino Fernandes, destaca o papel de “amor à camisola” dos pastores.
“São os pastores, verdadeiros aficcionados das ganaderias, que acabam por ser os verdadeiros motores das toiradas à corda nas freguesias” – sublinha.
O custo de uma toirada afamada, onde normalmente participa um gueixo puro, pode chegar aos seis mil euros.
Fátima Ferreira refere que as expectativas do mercado só viabilizam a condição de auto-suficiência das ganaderias.
O cuidado à volta do gado bravo dura o ano inteiro. Na época de Inverno, preparam-se os toiros, sobretudo ao nível da alimentação, para se portarem como verdadeiros atletas.
As canseiras, contudo, são esquecidas pelos momentos inolvidáveis de cada época taurina. Já na segunda-feira, 1 de Maio, as toiradas à corda na ilha Terceira têm, a partir das 18 horas, um começo triplo – Fonte da Ribeirinha, São Sebastião e Fontinhas. Só falta o foguete rebentar..."

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