agosto 10, 2006

"Tourada à corda em Coruche"

In O MIRANTE

"CORUCHE.- Na Ilha Terceira as touradas à corda movimentam milhares de pessoas atraídas por uma tradição secular. É isso que a comissão organizadora das Festas em Honra de Nossa Senhora do Castelo também pretende. Quando a festa estiver nas ruas da vila de Coruche na quarta-feira, dia 16, às 11h00, com a presença de pastores (os que seguram a corda) e capinhas (que lidam o toiro) da terceira ilha dos Açores a ser descoberta.
Quem conhece bem esta que é uma das principais atracções turísticas da ilha, com 29 quilómetros de comprimento e 18 km de largura, é o cantor Carlos Alberto Moniz. Um açoriano a viver no Ribatejo. O marido da ex-vereadora da Câmara de Santarém e actual secretária de Estado adjunta e da Reabilitação, Idália Moniz, começa por dizer que duvida que numa ilha com perto de 60 mil habitantes “alguém não tenha ido pelo menos uma vez participar numa tourada à corda”.
Carlos Alberto Moniz, nascido em Angra do Heroísmo, ainda se lembra do dia em que foi ver uma tourada e acabou em cima de uma frigideira de uma tasca. Foi em 1970, andava na altura no liceu. Foi com os colegas para ver a tourada do primeiro de Maio, a certa altura o toiro investiu na direcção do seu grupo. Fugiram todos para dentro de uma tasca, onde o animal também entrou. Passado o reboliço, o cantor deu por si deitado no chão atrás do balcão, tendo como colchão a frigideira dos bifes.
Nesta variante tauromáquica é proibido tocar no toiro. Ao contrário do que acontece nas picarias ou largadas no continente. Geralmente os aficionados toureiam o animal agarrado com uma corda puxada pelos pastores (envergando calças cinzentas, camisola branca e chapéu preto de aba larga) com chapéus-de-chuva, descreve. Mas também costumam aparecer curiosos a fazer as suas lides com cobertores.
O toiro é o elemento principal da tradição. As freguesias disputam o direito de ter os melhores toiros. Cada tourada tem quatro reses, a última é chamada “o puro”. Aquele que nunca foi à corda. Mas para Carlos Alberto Moniz que não se aventura a desafiar o toiro, o quinto também é muito apreciado. Refere-se ao petisco “lidado” numa qualquer tasca típica da ilha. “A minha experiência resume-se ao que vejo os outros fazer”, sublinha com humor.
A época desta manifestação de cariz popular começa no dia 1 de Maio e prolonga-se até 17 de Outubro, segundo conta Carlos Alberto Moniz. Durante este período chegam a realizar-se 250 touradas, com reses de ganadarias da ilha. A maior parte dos toiros já são conhecidos do público.
Para se compreender a importância que esta manifestação tem na Terceira, Carlos Alberto Moniz conta um episódio que se passou com um amigo seu. Quando este foi para abastecer o carro numa bomba de gasolina deparou-se com o posto deserto e com um papel manuscrito: “Volto já, fui aos toiros”.
As touradas à corda decorrem ao fim da tarde. Mas de manhã há sempre umas brincadeiras para os mais novos. Soltam-se umas vacas para as crianças e jovens começarem a tomar o gosto pela emoção de uma festa que passa de geração em geração. Carlos Alberto Moniz diz com orgulho que um dos famosos capinhas da ilha, o Dimas, veio-lhe pedir há dois anos para lhe levar o filho a uma tourada para miúdos. “Fiquei todo contente e orgulhoso”, conclui.
Os toiros da tourada em Coruche são de Praia da Vitória, da ganadaria Irmãos Toste. E foram transportados de barco, em jaulas próprias, até Portugal. Chegaram a Coruche na segunda-feira e vão ficar numa quinta do concelho até ao dia da festa. "

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