dezembro 12, 2008

Toiro nº 38 – ELISA

Foto Diário Insular -DR


Por José Henrique Pimpão in Diário Insular
Em geral há a tendência de homenagear, seja quem for, só depois da morte.
Hoje vamos dissecar sobre as qualidades (boas ou más), fisicas, sexuais, temperamentais etc., do toiro (e/ou vaca?)n.º 38 “Elisa”, mas em vida e em jeito de homenagem . Vamos tratar por “ela” só pelo facto de ter alcunha feminina (até do B.I. emitido por um aficionado, com o nome completo de: Maria Elisa Doida).
De qualquer forma, trata-se de um animal mamifero e bravo, que no sossego do mato e mesmo com os seus já quase 12 anos de vida, pelas suas impressionantes características de sexualidade, magia e bravura, ficará para sempre no galarim histórico da nossa tauromaquia, como uma raridade da natureza animal.
Filha do bravo e famoso “314” que, mesmo cego duma vista, mostrou, sempre ser de boa raça a, “Elisa” com todos estes predicados, lá se vai esforçando, apesar de um pouco velhinha e cansada das muitas cordas (60) que deu até agora, atraindo multidões para observar as suas invulgares diabruras.
As pessoas nos arraiais têm que estar muito atentas: a “Elisa” até há uns tempos atrás, no auge da juventude, corria como avião a deixar pista, misturando-se, quantas vezes, com o povo, como leão na selva em louca correria à caça de veado: antes um no papo que todos a debandar.
A figura que lhe sai em sorte jamais a larga, mesmo que de joelhos, sem que lhe puxem a corda (ver foto).
Além de todas estas peripécias a “Elisa” foi dos toiros que mais pancada suportou: para a suster da desenfreada correria, várias vezes com tal rigidez que, no esticar da corda, dava volta no ar, acabando por se estatelar no chão de “barriga para o ar”. Apesar disso, nunca se mostrou diminuída fisicamente, nem deu mostras de cansado (a língua nunca lhe cresceu).
É de tal modo popular que muitos dos seus fãs arranjaram maneira de a perpetuar na memória da aficion: caso de Francisco da Luz, filho do velho capinha Malcasado, que lhe emitiu bilhete de identidade com todos os dados biográficos, distribuindo cópias pelos aficionados; e de Fernando Ribeiro Freitas, de Vale de Linhares que, como a gravura ao lado nos mostra, gravou tatuagem na perna direita, demonstrando a sua “paixão” pela “Elisa” até à morte!
Pelas suas invulgares características, nomeadamente sexuais e de comportamento, não farão "Elisa" um dos toiros raros e, como tal, mais admiráveis e famosos do século?
A completar, registamos a seguir uma pequena entrevista a Fátima Albino Ferreira, da Casa Agrícola José Albino Fernandes:



- Quando nasceu este toiro apercebeu-se logo que se tratava de macho ou fêmea?


O António viu nascer este bezerro, mas olhou para ele e tomou nota na sua agenda como sendo uma fêmea. Dias mais tarde, quando conseguiram fechar as vacas para fazer os sinais de orelhas, que são a marca da ganadaria, até à ferra, comentou com os nossos pastores e colaboradores, aficionados desta Casa, que estavam a ajudar nesse dia: - Esse é um macho! Mas logo eles retorquiram, não senhor! Este é um “rancolho”, pois tem os testículos recolhidos, mas é um macho.


- O nome de registo é Gatuno, como apareceu o apelido de Elisa?


Nós tínhamos um empregado “José Luís” que se encontra no Canadá, que quando via um homossexual, dizia: Aquele é uma Elisa! E foi deste modo que o toiro que tinha os testículos recolhidos e que tinha uma cara de vaca, por fim começou a ser conhecido. Mas antes teve vários nomes: “O Macho-fêmea! O Cara de vaca! E finalmente o Elisa ou o Marie Elise! Porque um dia um turista francês numa tourada em Vale de Linhares, chegou junto das gaiolas e pediu que queria ver o “Marie Elise” para tirar fotografias e ver enjaular.


- Teve ou tem problemas de saúde?


Aparentemente não tem problemas de saúde, cuida-se bem e costuma estar sempre bem apresentado, sem excesso de gordura, mas sempre bem nutrido e bem saudável.


- Tem conhecimento de algum dia ter assistido, casos em toiros, idênticos aos da Elisa, no aspecto de sexualidade? Ou trata-se de um fenómeno?


Até hoje não conheci outro, mas deve ter havido outros animais nesta situação, só não se devem ter destacado, nem se notabilizaram pelo seu comportamento como este toiro.


- É filho da vaca 212 e do célebre toiro nº 314, que apesar de ter uma deficiência numa vista, mostrou sempre bravura?


Sim. O 314 foi um toiro que padreou na ganadaria deixando óptimos filhos como o 35 e o 42 que são sementais. E outros que sempre se destacaram. Foi um toiro que deixou as suas características físicas e de bravura em todos os seus filhos. Este toiro sempre que saía da gaiola tinha uma investida alegre e pronta.


- Como bravo que é, o “Elisa”, quais as suas principais características no modo de investir?


O ”Elisa” é um toiro muito veloz, que com a idade tem diminuído essa velocidade, porque dava pancadas terríveis no chão. Mas quando se fixa numa pessoa não a larga. Quando pega não deixa fugir a sua presa e tem muita facilidade em dobrar o pescoço e esfregar a pessoa, deixando-a com nódoas negras que só ao longo dos dias se vão notando. É muito perigoso, mas muito dócil no mato. Agora, inclusive na gaiola não precisa de cabeçada para pôr a corda. Deixa que os pastores falem com ele e lhe coloquem a corda sem levantar qualquer problema. No mato tem muita personalidade, não deixa que o molestem e mantem sempre uma distância considerável. Fixa-se nas pessoas de tal modo que ninguém se intromete nos seus terrenos.


- Das cerca de 60 cordas que já deu naturalmente que haverá casos que merecem especial atenção e graça. Conte-nos o que puder.


É um toiro especial, sempre pronto a investir, com graça e vontade, claro que as pessoas têm muito medo e respeito, porque sabem como pode ser imprevisível, por isso em touradas que vai não aparecem capinhas, o que por vezes tira brilho ao desempenho deste toiro.


- Tem vários irmãos que creio serem os seguintes: 32, 33, 35, 39, 42, 43, 45, 61 e 89. Como não reproduz o que poderá ter são sobrinhos. Quantos? E de quem são filhos?


Para o próximo ano vamos ter os filhos do 42 e já tivemos filhos do 35.


Características sexuais da “Elisa”



Procurámos desvendar, através dum técnico em medicina veterinária, como funcionam os órgãos sexuais do toiro/vaca (?) nº 38 com alcunha de “Elisa”, um mistério causador de pasmo geral, pelo menos até hoje.
Ninguém melhor que um médico veterinário, no caso o Dr. Vielmino Ventura que, através da Direcção Regional de Desenvolvimento agrário, presta assistência sanitária a todas as ganadarias oficiais da ilha.
Assim, às perguntas formuladas, o Dr. Vielmino Ventura responde-nos genericamente a todas, por forma a conhecermos, à medida do possível, a “máquina interna” da mundialmente famosa “Elisa”, em primeira mão.


Perguntas:


Sexualmente falando, este animal é macho, fêmea ou misto?
Quais os órgãos sexuais que possui ou devia possuir?
Urina por 2 órgãos? Quais?
Em suma, diga-nos tudo sobre a sexualidade da Elisa, incluindo o campo reprodutivo.
Será um Fenómeno?

As respostas:

Eis a opinião técnica do Dr. Vielmino Ventura.


“O toiro com número de costado “38” e ferro da Casa Agrícola José Albino Fernandes tem de facto algumas particularidades no que respeita ao seu fenotipo.
O animal em causa apresenta de forma visível uma vulva rudimentar na zona inguinal baixa e um pénis e prepúcio normais na zona abdominal ventral.
A não visualização de testículos pendentes na zona do escroto não é indicativo da sua completa inexistência, visto estes poderem estar alojados na cavidade abdominal.
Temos sim uma boa indicação da sua ausência ou não funcionalidade em termos de produção hormonal pela completa inexistência de características sexuais secundarias, como é um maior desenvolvimento da musculatura do trem anterior entre outras.
Destes factos se pode concluir em termos técnicos que aquando do seu desenvolvimento embrionário não houve uma correcta diferenciação das gónadas sexuais, sendo este animal classificado como um pseudo-hermafrodita ou seja como possuindo os dois sexos incompletos.
À pergunta que foi colocada sobre a micção, direi que é possível observar micção nos orifícios sexuais, vulva e pénis, o que nos indica a possível existência de uma uretra bífida ou duplicada.
Para responder à pergunta da sua capacidade reprodutiva direi que o tracto genital feminino presente é manifestamente subdesenvolvido e o trato genital masculino peca pela possível ausência de testículos, situação esta que só poderia ser confirmada por laparoscopia exploratória, visto que a titulação hormonal provavelmente não seria conclusiva.
Sobre a possibilidade de este animal ser um “fenómeno”, ou seja de este animal …impressionar os sentidos, ser uma coisa rara, extraordinária e maravilhosa… direi na minha opinião que sim, mas esta pergunta e a sua resposta são mais do campo filosófico do que propriamente da área Medico-Veterinária.
Finalmente direi, é possível que alguma ninfa do Olimpo se tenha enamorado pela beleza deste animal e fundido o seu corpo com o dele, como aconteceu na mitologia grega com o filho do deus Hermes e da deusa Afrodite de seu nome Hermafrodito.”

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