junho 21, 2009

O Forcado e a pega

por Duarte Bettencourt in Festa na Ilha


Forcado símbolo da diferenciação cultural da nossa tauromaquia, compreendido pelos portugueses aficionados como uma demonstração de abnegação e estoicismo do homem frente ao toiro. O nome hoje simplesmente usado para denominar o moço de forcado insere em si um misto de valentia e poderio próprio do português, que vê na sua história o que hoje pouco se encontra na nossa sociedade.
A atracção dos jovens por esta sorte dá-se muitas vezes pela experimentação de algo transcendente na luta do homem com a besta, que vem até nós desde os primórdios da humanidade.
Da casa da guarda às pegas a campo, para tratamento ou recolha dos animais, nasce a sorte da pega na arena da praça de toiros, que não é mais do que a total imobilização do bravo por um conjunto de homens comandados pelo seu Cabo.
A evolução da pega permitiu que possamos assistir hoje a uma sorte com os tempos bem marcados e definidos, do citar, do aguentar, do templar, para depois o forcado da cara se reunir entre os cornos do toiro e ser ajudado pelos restantes sete elementos que compõem uma formação. Estes dividem-se em primeiras ajudas, pontas, rabejador e terceiras ajudas; o forcado da cara tem de ter plena confiança nos companheiros/amigos, que saltam à arena com ele, pois tem de manter em pleno a sua mente, preparado para raciocinar e decidir rapidamente, pois tudo se passa numa fracção de segundos.
A preparação do forcado com vista a uma boa prestação na arena passa definitivamente pela sua boa forma física e principalmente pela sua boa forma psicológica, pois a determinação e a vontade ultrapassam o próprio físico. O treino com a tourinha ajuda a corrigir os pormenores técnicos e estéticos que hoje se devem apreciar numa pega, pois esta insere em si um conjunto de técnicas que quando bem treinadas e executadas fazem com que o público sinta e viva a experiência de uma pega bem consumada. O treino com a tourinha, traçando um paralelismo com o toureio pé, não passa de toureio de salão, por isso é de extrema importância o contacto com a rês brava, no campo ou na praça, aí se tiram ilações quanto ao treino realizado com a tourinha e que pormenores devem ser corrigidos para que na presença do público na praça se possa mostrar o melhor que o forcado tem para dar. Os treinos são a forma natural de selecção daquele que se afirma na forcadagem, daquele que depois de passar por um grupo de forcados se torna aficionado para o resto da sua vida.
O treino do forcado passa também pelo ensinamento dos princípios básicos da tauromaquia, todo o forcado tem de conhecer os terrenos da praça, as querenças naturais e adquiridas pelo toiro na arena, seja ele da cara ou terceira ajuda deve saber avaliar um toiro desde que este sai da porta dos sustos até ao momento em que é chamado a saltar as tábuas. O forcado deve saber analisar um toiro na lide a cavalo e principalmente quando este investe no capote do bandarilheiro, pois sabendo o que tem pela frente mais fácil se tornará a sua sorte.
Hoje a pega deve ser analisada desde o saltar a trincheira, pela forma coordenada com que os oito elementos saltam as tábuas, o brinde e a forma de brindar a sorte, a colocação do toiro em função das suas características, a estética, a técnica e a valentia do forcado da cara, a forma correcta e decidida das ajudas, um rabejo correcto e sabedor, que por vezes faz toda a diferença na consumação de uma pega, a forma como abandonam o toiro depois de consumada a pega saindo da união com o toiro como que uma flor a desabrochar.
Cada vez mais se dá importância à pega pela emoção que ela transmite, quantas são as vezes que se sai de uma praça comentando uma pega em vez de uma lide, porquê? Talvez porque falta esta emoção e verdade ao toureio a cavalo da actualidade. Quantas são as vezes que as palmas na hora da volta triunfal são única e exclusivamente para o forcado? Por isso o forcado amador deve-se sentir um toureiro de corpo e alma, pois é isso que ele realmente é, um toureiro.

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