junho 21, 2010

Perera em Ombros

Realizou-se ontem, dia 20 de Junho, sob a presença de cerca de três quartos de casa na Monumental Ilha Terceira, uma Imponente Corrida de Toiros.

A presença do matador extremenho Miguel Angel Perera era o maior atractivo desta corrida e acabou por validar o que todos esperavam dele, abrir a porta grande da Praça de Toiros Ilha Terceira. Após uma excelente faena ao sexto da tarde, Perera foi o quinto toureiro da história desta praça a abrir a porta grande.

Em dois anos consecutivos duas portas grandes, dois matadores e apenas uma ganadaria. Está de parabéns a família Rego Botelho pela prestação dos seus toiros. Merecida volta ao ganadero António Baldaya pelo excelente jogo de cinco dos seis toiros enviados à primeira corrida da Feira de São João deste ano.

Outro grande triunfador desta corrida foi o grupo de forcados Amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense na consumação de três pegas ao primeiro intento, todas elas de elevada qualidade e execução técnica por parte dos forcados Marco Sousa, Álvaro Dentinho e João Pedro Ávila, com destaque para o forcado Álvaro Dentinho na pega mais dura da tarde a aguentar três violentos derrotes. Nota positiva é sem dúvida dada a todos os ajudas do grupo da Tertúlia com destaque para o contra caras Bruno Furtado.

O cavaleiro Luís Rouxinol teve pela frente três toiros de nota alta, aos quais só teve a capacidade de lidar o primeiro do seu lote, um toiro com um galope extraordinário, com investidas suaves e humilhadas, a arrancar-se sempre a galope aos sites do seu toureiro. Nos seus outros dois toiros o cavaleiro, além de mostrar a verdura de algumas montadas que fez deslocar à Terceira, andou vulgar na abordagem e momento de cravar a ferragem executando-a quase sempre a cilhas passadas e com alguns toques nas montadas.

A melhor lide foi a primeira, mais correcta e vistosa com os ladeios do "Ugano" com recortes por dentro cingidos, tão ao gosto do público mas com pouca verdade toureira, pois tudo o que se faz por detrás não tem o mesmo valor do que pela frente e de frente para o toiro. Destaque para a colocação correcta de toda a ferragem.

A lide do seu segundo foi pautada pela quebra de vários ferros curtos que tiraram o pouco de valor que já tinham as sortes executadas pelo cavaleiro continental. O cavaleiro não deu volta e foi assobiado quando foi receber a palmas, que eram do forcado, nos médios da praça terceirense.

No seu último toiro Luís Rouxinol tudo tentou para triunfar mas os ferros voltaram a não transmitir verdade nem emoção. Após algumas passagens em falso e toques na montada, colocou um par de bandarilhas pelo corredor de dentro e colocou no fim da lide, depois de duas passagens em falso, um ferro de palmo.

Voltando ao triunfador da corrida Miguel Angel Perera usou um traje rosa e ouro, e sentiu-se o perfume do seu toureio na arena angrense. Recebeu o primeiro do seu lote por Parons mesclados com Tafalleras e Gaoneras, repetiu o quite nos médios por Tafalleras rematadas com Revolera. No terceiro tércio inicia a faena nos médios com passes cambiados rematando por trincherilla e passe de peito, a três primeiras tandas pela direita foram crescendo acabando a terceira em muletazos de muito bom som, provou a esquerda do astado por três tandas acabando a terceira série por lances isolados, intercalados com lances de profundidade, voltou à mão direita para rematar a lide por três circulares invertidos. Simulou recebendo em sorte contrária.

A lide do seu segundo toiro foi esforçada na tentativa de sacar o pouco que o toiro lhe tinha para dar. O toiro não mostrou clareza de investida no capote, cedo mostrou sair solto dos lances dificultando a sua colocação, mostrou também ser parco de forças e de ter, quanto a mim, um defeito de visão na vista direita. Perera conseguiu os melhores passes com a muleta, executados com a mão esquerda junto à crença natural, a porta dos curros, pisando os terrenos de eleição deste manso conseguindo sacar passes arrimados de muito mérito.

Mas o melhor ficou para o fim com a lide do sexto da tarde. O toiro investia com classe e nobreza, mostrando franqueza na investida no capote do extremenho, que o recebeu por Parons seguidos de Chicuelinas cingidas rematadas por Meia Verónica. Saiu ao quite o matador sobresaliente Ruano que lanceou por Chicuelinas. Perera iniciou a faena de muleta com passes por alto mandando no astado deixando-o nos médios para em redondo e pela direita iniciar a lição de mando e poderio com que brindou a aficion açoriana. Rematou esta tanda com um vistoso passe de peito. Ao som de “Tércio de Quites” os lances foram-se sucedendo em profundidade e em consonância com a investida do toiro de Rego Botelho, os olés brotavam das vozes daqueles que viram e sentiram in loco o inicio de uma grande faena. A nobreza e mobilidade do astado vindo das pastagens da Caldeira Guilherme Moniz, contrastavam com o toureio em redondo de um toureiro arrimado de grande valor e entrega que mostrou porque é figura grada da tauromaquia mundial. Provou a esquerda do oponente para mostrar o seu lado menos bom, nesta tanda o toiro começou a vir a menos mas sem comprometer a lide ministrada pelo seu lidador. Entra por molinete e com a muleta invertida em redondo rematando com passe de peito, empolgando ainda mais o público presente. O toureiro entendeu na perfeição o toiro nunca deixando de lhe deixar a muleta na cara, por fim o rachar do toiro, mas não desfazendo na lide ministrada de êxito coroada com três voltas à praça, uma sozinho, uma com o ganadero e outra em ombros para cruzar a porta da monumental da Ilha Terceira.

O público presente nesta corrida merece nota de destaque pelo comportamento que teve durante as lides, onde exigiu e soube tributar palmas a quem realmente triunfou. Fico contente por ver que estamos exigentes mas retribuidores do bom toureio praticado.

O curro de toiros de Rego Botelho apresentou-se com uma média de peso de 460 quilos, mas que poderiam ser mais, pois não estavam rematados de carnes, muito por culpa do inverno que se fez sentir nesta terra de Jesus Cristo. Quanto a destaques, temos o toiro número 473 lidado em primeiro da ordem por Luís Rouxinol e o toiro número 19 lidado em terceiro lugar pelo mesmo cavaleiro, o destaque maior vai para o toiro do triunfo de Miguel Angel Perera o sexto da tarde de nome "Impacientado" e que ostentava o ferro com o número 11.
Os toiros lidados em segundo da ordem e quinto foram nobres e sem dificultar as lides aos seus lidadores, a nódoa caí sempre no melhor pano com a saída do quarto da ordem.

Mais uma vez tive a sorte e o prazer de presenciar uma saida em ombros da nossa praça, espero ver ainda mais este ano, a ver vamos.

Duarte Bettencourt

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