junho 27, 2010

"Tombado" de Rego Botelho, Manuel Pires do Ramo Grande e Luís Rouxinol

O Concurso de Ganadarias dava por finalizada a Feira de São João deste ano, não fosse o adiamento da corrida de sexta-feira, devido ao mau tempo, para hoje dia 27 de Junho. Mau tempo este, característico desta época do ano, que também ameaçou por vezes a corrida concurso.

Como já me referi antes em anteriores artigos de opinião, este modelo de concurso de ganadarias é único no mundillo taurino, não reflectindo, quanto a mim, a verdadeira essência do concurso de ganadarias, onde se lidam seis toiros de distintas ganadarias. Mas como nós Açorianos já estamos habituados a sermos diferentes, também somos diferentes no regulamento taurino, que por mais incrível que pareça prevê a lide de toiros com menos de 400 quilos desde que o ganadero pague uma coima, que vai desde os 500 aos 2500 euros. Infelizmente fez-se cumprir o regulamento com a presença num concurso de ganadarias de um utrero com 370 quilos. O ganadero dos Herdeiros de Ezequiel Rodrigues entendeu que deveria lidar este novilho mesmo sem as mínimas condições de apresentação, por isso foi vaiado pelo público presente, soberano nestas e noutras situações pois é ele quem paga os bilhetes e por conseguinte as corridas de toiros. As alterações ao regulamento deveriam ter sido feitas para melhorar e dar maior dignidade à Festa Brava, mas este Decreto Legislativo Regional nº11/2010/A, por aquilo que me está a dar a entender, veio ainda mais prejudicar a já debilitada legislação taurina açoriana.

Mais uma coisa inacreditável na edição desta corrida foi a alteração da normal ordem de lide, tendo Rui Fernandes lidado o primeiro e terceiro da ordem para ir apanhar o avião para Lisboa. Não é de forma alguma aceitável que depois de estar anunciado há já mais de seis meses, para actuar na corrida concurso da Feira de São João, o mesmo tenha desrespeitado a organização e principalmente a aficion açoriana realizando as suas lides de forma abreviada e desinteressada, despachando os ferros da ordem, para assim não perder a ligação ao continente português. O que pareceu foi que o cachet já estava ganho e bem ganho, e estava na altura de abandonar o barco que já se fazia tarde.

Os toiros apresentados pela ganadaria dos Herdeiros de Ezequiel Rodrigues estavam pequenos e com pouco peso. O primeiro da ordem ostentava o número 264 e como já foi referido tinha apenas 370 quilos, o lidado em quarto, com o número 247, era como o seu irmão de camada cornicurto, tendo este a particularidade de ter a córnea estreita, sendo gravito de pitons, este ezequiel tinha 420 quilos de peso.

A ganadaria da Casa Agrícola José Albino Fernandes apresentou dois toiros com quatro anos, que apresentaram trapio, eram sérios dentro do encaste e transmitiram na lide, provando que a idade faz toda a diferença (ver nota abaixo). Destaque para o lidado por Luís Rouxinol com o número 245, de nome “Querido” que galopou bem, sem querenças mas a tirar-lhe algum brio, a sua falta de força, denotada durante a lide pela perda das mãos e no momento da pega com o mesmo defeito.

Os toiros da ganadaria de Rego Botelho, bem apresentados, ambos com 525 quilos, voltaram a demonstrar o bom momento porque passa a ganadaria da família Baldaya. O primeiro toiro, número 3 lidado em terceiro lugar, pecou pela falta de córnea não se complementando com o volume do seu corpo, cumpriu sem romper, a destacar o galope cadenciado com que seguia a montada e a forma humilhada com que investia nos capotes dos bandarilheiros, acusou alguma falta de força, também manifestada aquando da realização da pega. O quinto da tarde de nome “Tombado” com o número 495, fez jus ao ditado, sendo o mais bravo e o melhor apresentado da corrida, vencendo com mérito os dois prémios a concurso. O toiro iniciou a sua lide um pouco trotão vindo a crescer ferro a após ferro sem nunca eleger terrenos de querença, tinha um galope extraordinário, arrancava-se com garbo após os sites do cavaleiro. Toiro enraçado que transmitia emoção em tudo o que fazia. Sem duvida o melhor da tarde.
Pela primeira vez em muitos anos não houve contestação do público, que esteve em consonância com o júri do concurso na entrega do prémio ao melhor toiro e ao prémio de melhor apresentação.

Aos amadores da Tertúlia Tauromáquica Terceirense saiu a fava do bolo, pois coube-lhes em sorte os toiros mais pequenos da corrida. Foram solistas Luís Cunha e Tomás Ortins, jovens forcados ainda no grupo Juvenil, que executaram duas pegas de excelente nota, à primeira tentativa, demonstrando a todos os presentes a continuação assegurada dos amadores da Tertúlia.

Os amadores de Turlock deslocaram-se à Ilha Terceira para apenas participarem neste concurso de pegas. Como já o disse em outras ocasiões, penso que a eles deveria ter sido dada a oportunidade de pegar sozinhos uma corrida na Feira de São João, à semelhança dos outros dois grupos incluídos no cartel.
As pegas foram executadas por George Martins ao primeiro intento e ao segundo intento por Michael Lopes, numa pega de raça e de querer do forcado da cara depois de vários derrotes. Nota menos positiva vai para os ajudas, que nesta pega tiveram quase a tirar por duas vezes, o forcado da cara do toiro. A rabejar o saudoso Américo Cunha no seu habitual show da cambalhota durante o rabejo, chegou às bancadas não sendo de forma alguma a maneira mais ortodoxa de rabejar. No final volta para o forcado, agradecendo nos médios, em forma de homenagem, o sempre rabejador Américo.

Os do Ramo Grande venceram o prémio para a melhor pega, executada pelo forcado Manuel Pires, que à primeira tentativa se fechou de alma e coração, com o toiro a dar uma voltareta. Aguentou o forcado, consumando sem dúvida a pega da tarde. Esta foi reconhecida pelo público presente que lhe chamou aos médios para lhe tributar uma forte ovação.
Ao terceiro intento e a sesgo pegou com dificuldade Nuno Pires, numa pega carregada pelo grupo que se mostrou unido e decido perante as dificuldades.

As lides a cavalo até à data, na feira de São João, não tem ultrapassado o nível do razoável.
Nesta tarde o cavaleiro Luís Rouxinol alcançou duas lides superiores às realizadas na primeira corrida da feira. O cavaleiro não conseguiu porém esconder a falta de montadas capazes de executar o toureio de frente, optando por ladeios a galope e recortes cingidos para chegar ao público, descurando contudo o momento do ferro com as sortes a saírem aliviadas. Optou pela cravagem de ferros a sesgo sem necessidade aparente, face às condições de lide dos seus oponentes. Na lide do seu primeiro da CAJAF, executou uma lide em crescendo, acabando por perder os papéis no final da mesma com a colocação de dois meios pares de bandarilhas pelo corredor de dentro acabando por deixar os dois a duas mãos só à terceira tentativa. Teve a sorte com o sorteio que lhe ditou a lide do melhor lote, ajudando-o e de que maneira a obter o prémio à melhor lide. A meu ver o toureiro não pode com o toiro RB, vencedor do concurso, andando uns furos abaixo deste. Nesta lide opta pela cravagem do primeiro curto montando o “Dolar”, o seu cavalo de saída, que na sua primeira abordagem se furta às ajudas do seu cavaleiro, depois com o “SeMeQuer” realiza uma faena com vários toques na montada onde as sortes saíram quase todas a cilhas passadas, muda de montada e com o “Vimeiro” arma o taco, executando de entrada uma sorte de recurso ao violino, crava um de palmo, mais um meio ferro curto do que um de palmo, cingido e bem rematado, para no fim deixar a sua imagem de marca com um meio par de bandarilhas, saindo sobe forte ovação do sector do sol.

Tiago Carreiras teve uma passagem meritória pela arena angrense, mostrando porque foi considerado o máximo triunfador do escalão inferior da cavalaria nacional. Até à corrida de ontem foi o cavaleiro que apresentou as melhores montadas. Teve duas lides de mérito onde se destaca, na lide do de ER, o quarto ferro com o cavalo “Mãozinhas”, com uma excelente preparação e abordagem correcta, de frente e cravagem ao estribo, rematando a sorte com grande vistosidade, pena foi a colocação traseira do ferro, pormenor de somenos importância no desenho desta excelente sorte.
Na lide do da CAJAF com o número 250, Tiago não se encontrou com a cravagem dos ferros compridos ambos pescados, traseiros e descaídos. No segundo tércio coloca no oponente quatro ferros de boa nota sobressaindo o último seguido de reverance, de frente e ao estribo, rematado com grande vistosidade.

O cavaleiro Rui Fernandes andou desarredado da aficion terceirense com duas lides amorfas e sem qualidade, deixando um grande amargo de boca em todos os presentes. Sortes aliviadas, ferros traseiros, falta de emoção no momento da cravagem, de tudo um pouco aconteceu nas lides do da margem sul. Destaca-se o segundo ferro comprido cravado ao “Açoriano” de RB a deixar o toiro partir para o deixar em todo o alto, rematando a sorte como mandam os cânones.

Não houve contestação por parte do público na entrega dos prémios aos vencedores deste Concurso de Ganadarias.

Duarte Bettencourt

Nota: Quando escrevi este artigo tinha a informação visual da nova placa dos pesos que apresenta, entre outras informações de relevo, o ano de nascimento das reses a serem lidadas. Como na apresentação do toiro nº 250 da CAJAF, vinha nesta dita placa que o toiro teria nascido em 2006, deduzi que o toiro nº245 também tivesse os quatro anos compridos. Ontem dia 27 de Junho a quando da corrida constatei que tinha cometido este erro, devido ao facto de quem deveria ter retirado a placa com o ano de 2006 que pertencia ao quinto toiro nº495 de RB, este sim com quatro anos completos, assim não o fez. Peço as minhas desculpas pelo erro causado.

Duarte Bettencourt

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