junho 27, 2011

Goyesca

Foi ao estilo de Francisco de Goya, famoso pintor espanhol dos séculos XVII/XIX, que se desenrolou a última corrida da Feira de São João de 2011. Pela primeira vez em Portugal realizou-se uma corrida deste género, corrida esta realizada hoje em dia um pouco por toda a Espanha e que tem o seu expoente máximo em Ronda, organizada desde 1954 pela família Ordoñez. Esta Goyesca foi a forma encontrada pela organização da Feira de São João para de certa forma reivindicar uma festa melhor e mais verdadeira. Nas cortesias participaram os(as) Aguacillos (as), os picadores e a parelha de cavalos que têm como função a recolha do toiro depois de morto na arena, simbolizando no seu conjunto a corrida integral.

O cartel desta corrida foi muito bem pensado e estruturado, com muitos motivos de interesse, com a presença de Uceda Leal, Julian Lopez "El Juli" e Leandro, na lide de novilhos de Rego Botelho, que no geral mansearam, destacando-se o segundo da corrida lidado por "El Juli", de nome "Guardêz", acusando contudo alguma falta de força.

Uceda Leal recebeu o primeiro por verónicas rematadas com meia. Destaque para o par de bandarilhas de João Pedro Silva, quadrando-se na cara do toiro. Com a muleta o matador executou três séries pela direita com o toiro a descair para tábuas, para de lá não mais sair, simulou a sorte suprema por volapié. No seu segundo, quarto da corrida, o matador natural de Madrid recebeu o novilho de RB por paróns, rematados nos médios por meia verónica cingida.Mais um bom par do terceirense João Pedro recebendo forte ovação dos tendidos. Na muleta provou por baixo a investida do novilho, para depois por derechazos deixar por instantes o perfume do seu toureio, nesta fase da lide denotava-se já a brutidão com que o astado da caldeira Guilherme Moniz brindava no final do passe a muleta de Leal. Descaiu para tábuas manseando, sendo lidado na querença, por raça e entrega de matador madrileno. O público entendeu o esforço do matador e tributou-lhe uma forte ovação.

"El Juli" regressava à Ilha Terceira depois do triunfo alcançado na Feira de São João de 2009. Depois do cartel granjeado junto da aficion terceirense, esta encheu a praça para o receber nesta tarde de 26 de Junho de 2011. Grande expectativa  rodeava a prestação de "El Juli". Recebeu o seu primeiro por paróns e chiquelinas rematadas com uma templadíssima larga. Com as bandarilhas destacou-se a prestação de Luís Garcia com dois belíssimos pares a quarteio, cravados na cara do oponente, destaque ainda para a forma como o lidador de serviço Álvaro Montes Rodrigues, mimou o novilho do seu matador. Até dá gosto ver lidar desta forma. Na muleta e de forma inteligente Julian levantou um pouco a mão para que o novilho, que apresentava boas condições de lide, investisse de melhor forma evitando assim que caísse, sinal da sua falta de força, a segunda tanda de derechazos foi de grande nível com um câmbio de mão rematado com um passe de peito, seguiu-se uma serie pela direita templada de grande impacto. Alternou entre derechazos e naturais, para terminar em redondo e  por circulares, sobre grande ovação do público presente. Deu merecida volta sob grande ovação com o público de pé. No seu segundo "El Juli" não teve matéria prima para o desejado êxito, ainda tentou a esquerda do novilho, mas sem fortuna, depois de passes de castigo simulou por volapié.

Leandro recebeu o primeiro do seu lote por verónicas bem desenhadas, parons, com remates por meias-verónicas. No segundo tércio destacaram-se os pares de bandarilhas de Miguel Martin e Jorge Silva.  O de Valladolid inicia a faena com passes por baixo, para depois com a direita desenhar derechazos de grande profundidade e plasticidade, na terceira tanda o toiro racha e saí em direcção à porta dos curros, Leandro porfia com a esquerda para junto dos curros terminar a sua faena. O sexto da tarde deu logo de inicio sinal de que sairia solto das sortes, mesmo assim Leandro desenhou verónicas de muito temple e plasticidade rematadas por meia cingida. No segundo tércio destaque para os dois pares de Manuel Soto e para o par extraordinário do bandarilheiro terceirense Jorge Silva, muito ovacionado pelo público presente. Na muleta o novilho de RB, quer pela direita quer pela esquerda saía solto das sortes, cumprindo o que se augurava no ínicio da sua lide, mas Leandro porfiou trazendo-lhe para junto da sua querença sacando literalmente água de um poço seco. Com duas sérias magníficas pela direita e outra, afinada pelo mesmo tom, pela esquerda, pede música o público soberano  mas a insensibilidade do Director de Corrida,Carlos João Ávila, falou mais alto negando como prémio ao desempenho valoroso de Leandro Marcos o merecido acompanhamento músical. Uma nódoa na bem dirigida mas muito exigente direcção de corrida.

Uma nota final de apreço para com o público terceirense, que me deixou orgulhoso pela forma como se comportou durante toda a Feira. Público aficionado e conhecedor que eleva a qualidade da Praça de Toiros Ilha Terceira ao mais alto nível da tauromaquia mundial.

Duarte Bettencourt

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