junho 30, 2015

Novilhada à Espanhola

Uma novilhada com matadores de toiros e com cortesias dignas de uma primeira praça espanhola, para mim e para muitos felizmente, não passou de uma encenação barata, demonstrativa da intenção da organização em mostrar aos outros aquilo que não é nosso e ainda por cima com o intuito de com isso captar turistas. E por falar em turismo... Quando se viaja a outro destino que não o nosso, procura-se saber algo mais do lugar que visitamos, a sua história, a sua cultura. Nós, terceirenses, somos possuidores de uma cultura inigualável e é esta cultura, que é tão nossa, que o turista que nos visita quer encontrar. Não acredito que um turista francês ou espanhol se desloque à nossa ilha para assistir a um espectáculo como o de ontem, podendo tê-lo com verdade a poucos quilómetros de sua casa. O turista visita-nos para viver a nossa cultura, e onde se baseia a nossa cultura taurina? Nem preciso escrever pois todos os que lêem estas linhas o sabem. O turista quer estar na nossa Festa e entrosar-se com ela, se houver uma tourada de praça, com certeza a irá ver, mas tirem isso das vossas cabeças, não vem nenhum turista à Terceira para ver touradas de praça!

Vamos ao que interessa pois esta conversa dava panos pra mangas.

Foram lidados três novilhos da ganadaria Jandilla, de jogo desigual, destacando-se o bravo “Impagado” lidado por Juan Leal e que saiu em sétimo lugar da ordem. A ganadaria de Rego Botelho lidou 5 novilhos, também de jogo desigual, destacando-se o bravo lidado em quarto lugar por Manuel Dias Gomes, que foi baptizado com o nome “Anónimo”. Os pesos oscilaram entre os 415kg e os 520kg, com uma média final de peso de 463kg.

Ninguém se manifestou, comeram, calaram e ainda se divertiram, para que é que interessa mesmo uma lei? Para nada, digo eu. Impunidade até quando?

Possa, já ia começar outra vez, mais mangas? Não. Vamos à frente.

Juan Leal um toureiro francês que foi acolhido pelos terceirenses como um dos seus, pode-se dizer um grande toureiro e um grande senhor. Saiu em ombros pela porta grande da Praça de Toiros Ilha Terceira, depois de uma lide de entrega desde o primeiro minuto. Recebe o Jandilla à porta dos sustos, para depois de joelhos em terra dar lances com tremendismo, para acabar com chicuelina rematando por revolera. Delírio nas bancadas. De seguida por lopecinas muito bem desenhas, seguidas de afarolado de joelhos e é colhido pelo ventre sem gravidade. Segue-se um quite de Dias Gomes por gaoneras e tafalleras de bom corte. Segundo tércio com uma excelente actuação da dupla de bandarilheiros terceirense, João Pedro Silva e Gonçalo Toste que receberam uma estrondosa ovação após o seu desempenho com as bandarilhas. Leal recebe o “Impagado”, um bravo de Jandilla, de joelhos em terra provando a sua investida, pondo no bolso o público presente, experimenta a direita do oponente com passes de grande profundidade, pena o vento forte que foi uma constante em todo o decorrer desta novilhada. Provou a esquerda com naturais templadíssimos rematados com passes de peito, volta à direita com passes isolados mas templados, inicia a sétima tanda por circulares, outro e mais outro rematados com passe de peito mirando el tendido, com os pés fincados na arena lida o astado à volta do seu corpo e ouve mais uma estrondosa ovação. Remata a lide por bernardinas, simulando recibiendo em sorte contrária. Duas voltas à arena e saída em ombros pela porta grande. Juan no seu primeiro andou esforçado, mas o seu oponente não deixou mostrar o que lhe ia dentro. O novilho nº 46 de Rego Botelho cedo perdeu recorrido, tendo o seu lidador baseado a sua faena em passes isolados.

Manuel Dias Gomes, um dos dois substitutos de Ferrera (mais uma com mangas), em dia de aniversário recebeu o melhor novilho de Rego Botelho, um novilho com muito recorrido e que humilhava de maravilha. Dias Gomes recebe o “Anónimo” com uma afarolada seguida de verónica, prova de seguida a investida do bravo novilho, repete por verónicas e parons rematando por revolera. Na muleta inicia a lide com passes por alto rematando com passe de peito pela esquerda, prova o excelente piton direito do astado. A terceira tanda, pela direita, foi de grande qualidade, com muito temple e mando, com o novilho a humilhar com classe. Pela esquerda perde a muleta, e pasme-se, a música continua. Outra vez dois pesos e duas medidas quanto ao critério do Director de Corrida. Volta à esquerda com passes isolados para no final da lide e já pela direita optar pelas cercanias, pelos circulares e circulares invertidos. Finaliza a sua lide por manoletinas mirando o tendido. No seu segundo e último da longa novilhada, Dias Gomes deixou pouco a contar, com o novilho de Rego Botelho a ficar sem passes logo pelo inicio do terceiro tércio, deixando sem opções o mais jovem matador de toiros português.

Diego Urdiales, toureiro de luta e um trabalhador incansável, não teve um lote à sua altura, mostrando contudo ofício. Oficio este que mostrou na lide do quinto novilho, um manso rabão de Jandilla, sacando passes de mérito, mostrando a todos a sua capacidade lidadora.

Jiménez Fortes veio substituir Antonio Ferrera e passa por esta novilhada, sem pena nem glória, pouco também podia fazer com o lote que lhe coube em sorte, dois mansos de procedência idêntica.

Foi com meia casa que o público terceirense brindou esta novilhada com matadores de toiros, coisa que não acontece em mais lugar nenhum do mundo. Olha se calhar poderá ser um chamariz turístico, quem sabe?


Duarte Bettencourt

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